40 livros, como foi isso?

Revista Prolegis 15 de março de 2009 João Baptista Herkenhoff 0

João Baptista Herkenhoff

        Está saindo neste mês meu quadragésimo livro. Perdoem os leitores este registro pessoal mas 40 é um número extremamente simbólico no mundo das letras porque quarenta são as cadeiras das academias, desde a Academia Francesa,  Academia Brasileira, até nossa Academia Espírito-Santense de Letras e muitas outras academias espalhadas pelo Brasil.

Meu primeiro livro não foi impresso, foi modestamente mimeografado.

Devo à convivência que tive com meu avô materno o gosto por isto de escrever. Meu avô entregava-me os originais manuscritos dos livros que escrevia para que eu os datilografasse. O tema mais constante das obras era a exaltação da paz.

A figura daquele avô velhinho, advogando a idéia de paz, me encantava. Um dos livros que datilografei tinha este belo título: A Civilização e sua Soberania.

Como bom aluno de português, eu percebia alguns cochilos nos originais. Mas quando é que, naquele tempo, um neto corrigia um avô. Batia do jeito que estava escrito, repetindo o erro. Com os originais bonitinhos, datilografados em espaço dois, em luminosa tinta azul, o avô percebia o erro e com a maior falta de cerimônia me advertia: João, meu neto, você errou aqui. Diante da reprimenda só me cabia datilografar tudo outra vez, evidentemente sem reclamar.

         O livro é um objeto curioso. Mesmo quando se torna um best-seller, a tiragem é modesta se comparada à tiragem dos grandes jornais e revistas. Entretanto, mesmo na singeleza das pequenas edições, a força do livro é muito grande porque o livro tem a vocação da perenidade.

         O jornal da véspera é jornal de ontem. O livro nunca é livro de ontem, mesmo que muitos anos tenham transcorrido depois da publicação.

          Quando um autor cita um outro autor, o verbo é colocado no presente, e não no passado. Exemplo: “como diz o autor fulano (e não – como dizia ou como disse o autor fulano)”. O autor, mesmo falecido, é referido como se vivo fosse. Daí ser comum que o leitor, generalizando a idéia de morto ser tratado como vivo, veja os autores, em geral, como pessoas falecidas. Eu mesmo tive uma experiência pessoal neste sentido. Numa capital do Nordeste, depois de uma palestra que fiz, um jovem aproximou-se de mim e manifestou sua alegria de apertar minha mão porque, no imaginário dele, eu era morto. Quando ele me contou seu engano, eu respondi brincando: que bom, meu jovem, você está então apertando a mão de um ressuscitado.

         O título do quadragéssimo livro é Dilemas de um juiz – a aventura obrigatória. Está sendo publicado por uma simpática editora carioca, a Editora GZ, de Guilherme Zingone.

Os livros circulam misteriosamente mundo afora. Depois que tive a idéia de colocar meu endereço postal na orelha dos livros, tive uma grata surpresa: a de receber muitas e muitas cartas de leitores.

 A integração entre autor e leitor, produzida pelo livro, é tão grande que os leitores dirigem-se ao autor de forma familiar, como se o conhecessem pessoalmente.

Publicar livro dá muito prazer. Não importa muito o valor intrínseco do livro porque, se nos preocuparmos com isto, melhor é não escrever porque tantos livros foram publicados, de todos os gêneros, em todas as áreas, que dificilmente há coisas novas a serem ditas.

         Ao fazer referência a sua própria satisfação de publicar livros, Ziraldo menciona um aspecto interessante: o livro não é etéreo, embora idéias sejam imateriais. O livro é concreto, podemos pegar o livro, fazer que suas folhas corram em nossas mãos como se fossem pedras de dominó, acariciar seu dorso como se acaricia o dorso de uma mulher, ou acariciar seu rosto com ternura, como se fosse o rosto de uma criança.

         A jovens que ainda não tenham publicado livro, mas alimentem o projeto de um dia fazê-lo, eu encorajo: escrevam e publiquem pelo menos um livro.

         A velha sabedoria diz que o ser humano se realiza em plenitude quando planta uma árvore, torna-se pai (ou mãe) e publica um livro.

         Plantei uma árvore no Horto Municipal, em Cachoeiro de Itapemirim. Tenho um filho. Completo agora 40 livros.

Ao ensinamento clássico eu talvez fizesse um acréscimo, como receita de felicidade: plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho e ter também um neto. Espero o advento deste antes do quadragésimo primeiro livro.

 

REFERÊNCIA BIOGRÁFICA

João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo e magistrado aposentado. E-mail: jbherkenhoff@uol.combr


João Baptista Herkenhoff


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