Variações sobre a inveja e o poder

Artigos e Ensaios 6 de outubro de 2007 Ives Grandra da Silva Martins 0

OPINIÃO:  * Ives Gandra da Silva Martins  –  O poder é, em grande parte, alimentado pela inveja. Inveja é o vício pelo qual a pessoa que o tem –e quase todos os seres humanos o ostentam- sente-se infeliz com a felicidade alheia.

Se se perguntar a alguém, se é invejoso, sua primeira reação é afirmar que não é, mas a medida em que se auto-analisa, com sinceridade, verificará que, muitas vezes, sentiu-se infeliz por ver a felicidade alheia, que não conseguiu para si.

Entre os guerreiros árabes, na luta que travavam pelo poder, costumava-se dizer que a grande felicidade era morrer depois do inimigo.

Carl Schmitt, ao escrever que a política é a ciência que opõe o amigo ao inimigo, desventrou a realidade do poder, em que servir ao próximo é menos importante do que se servir dele e a vitória do inimigo dói mais, pelo êxito não ter sido seu.

Não apenas na política – a inveja, que leva a buscar sempre defeitos nos adversários para desmoralizá-los – mas em qualquer manifestação cultural, científica ou esportiva em que o poder esteja envolvido, esse vício é o senhor da festa.

Nos meios acadêmicos e universitários, a feira das vaidades leva sempre aquele que se considera superior a sofrer com a vitória de pessoas que não admira – ou que entende devesse ser sua – e tentar desvalorizá-la a todo custo. Conta-se que, certa vez, numa reunião de intelectuais, um deles fez a seguinte pergunta: “Quantos sábios estão nesta sala?”, tendo recebido a resposta de um deles: “Certamente, há um a menos do que você pensa!”.

No futebol – e também em outros esportes coletivos – quantas vezes se torce menos pela vitória do próprio time ou do melhor em campo, e mais pela derrota daquele que é o adversário mais constante do time do coração, qualquer que seja ele, mesmo que seja de outro país.

A maledicêndia é um dos frutos preferidos, principalmente na política. Quem  busca o poder, lança suas sementes para conseguir a desmoralização do adversário que esteja nele investido no momento, ou que pretenda obtê-lo. Tudo é válido, inclusive a calúnia e outros procedimentos menos éticos, para que se consiga alijar o inimigo do posto que se deseja.

Não sem razão, em todos os períodos históricos e espaços geográficos, a luta política é mal cheirosa, regada abundantemente pela inveja. Esse vício não permite que se elogie o que o adversário faz de bom, pois isso enfraqueceria a possibilidade de se suplantá-lo na disputa. A inveja, por fim, leva o aspirante do poder político, universitário, acadêmico, esportista ou de qualquer outra natureza, a viver uma permanente insatisfação, seja quando o obtém, porque passa a ter que defendê-lo contra quem o almeja, seja quando vê frustrada sua ambição de consegui-lo, pela infelicidade de assistir ao êxito dos que estão usufruindo daquilo que poderia ser seu.

Na verdade, entre os sete vícios capitais, que atormentam o ser humano, a inveja é a raiz de muitos deles.

Lutar contra ela no foro íntimo, não é fácil, pois todos nós, em algumas circunstâncias, podemos também render-nos a seu império. É, porém, fundamental, visto que só se pode enfrentar a vida com serenidade, vivendo as vitórias e as decepções. É importante ter presente que, no curso de uma existência, nada valemos. O interregno de uma vida só valerá, se conseguirmos semear nossa passagem, por mais humilde que seja, auxiliando o próximo, alegrando-nos com suas vitórias, entristecendo-nos com suas derrotas.

É insensato nos darmos muito valor, neste imenso universo em que nada somos.

 


 REFERÊNCIA BIOGRÁFICA

IVES GRANDRA DA SILVA MARTINS:  Professor Emérito das Universidades Mackenzie, UNIFMU e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, Presidente do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e do Centro de Extensão Universitária – CEU.

 

 

 

 

Ives Grandra da Silva Martins


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